30.7.15

Persépolis - Marjane Satrapi

Ao longo da vida, todos nós (leitores) elegemos aqueles que são nossos livros preferidos.
Alguns deles permanecem nesse posto para sempre, enquanto outros perdem lugar para novos preferidos. Isso tem a ver com o momento que vivemos, com quem somos no momento que lemos determinado livro e na maneira como nos identificamos com determinadas histórias ou personagens.
Outros livros acabam sendo os favoritos de uma fase ou de um momento nas nossas vidas. Certos livros, porém, chegam de repente e atropelam outros que estavam esperando para serem lidos ou que estavam na fila para se tornarem os nossos novos favoritos. 
Porém, o coração de um leitor é como um coração de mãe: sempre cabe mais um!

O livro de hoje me foi recomendado por quatro pessoas diferentes. E por quatro pessoas que eu confio muito no bom gosto literário. Por isso, na primeira oportunidade que tive, adquiri este que se tornou um dos meus novos preferidos. E eu vou dizer os motivos já já.


Sinopse:
"Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico, numa sala de aula só de meninas. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita - apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa.
Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares.
Em Persépolis, o pop encontra o épico, o oriente toca o ocidente, o humor se infiltra no drama - e o Irã parece muito mais próximo do que poderíamos suspeitar."

"Para me despertar, meus pais me deram uns livros" - melhor despertar possível

Antes de falar do livro, gostaria de falar sobre o Irã. Quer dizer, o que eu realmente sabia do Irã? 
Na minha cabeça o Irã é: tiro, porrada e bomba. No ocidente, o que sabemos do Irã se resume a algumas coisas sobre islamismo, outras sobre a disputa com os Estados Unidos, guerras, energia nuclear e (sim) preconceito influenciado e televisionado pela mídia e suas coberturas jornalísticas sensacionalistas.

No meu primeiro ano da faculdade, conheci a supersensacional escritora Chimamanda Adichie, que em uma palestra para o TED, mostrou que o que acontece com o Irã, acontece com a Nigéria. O que se fala de um povo na mídia, influencia a imagem que temos dele. Com isso, criamos em nossa mente uma única história sobre países que não conhecemos: a Nigéria é um país pobre, o Irã é um país em guerra. 
Quando comecei a ler Persépolis, logo notei que eu tinha em mente uma única história sobre o Irã. Mas, assim como ler os livros da Chimamanda me mostrou uma Nigéria que eu não conhecia, Persépolis me apresentou o Irã.

Marx e Deus são parecidos, só muda o cabelo crespo
A edição que eu comprei, é essa que traz a história completa. Mas eu sei que ele é vendido em Parte I, II, etc... Então, foquem nessa aqui!
Persépolis é um livro auto-biográfico em formato de quadrinhos. A personagem principal é a própria Marjane, que começa o livro com 10 anos, tentando entender os rumos da revolução em seu país: o Irã. Essa revolução derrubou o regime autoritário do Xá Reza Pahlevi para dar lugar a República Islâmica. Aquelas aulas que tivemos sobre a revolução na escola não podem ser comparadas à visão de quem viveu lá, nesse período. 
Marjane tem amigos, frequenta a escola, gosta de livros, tem um tio comunista, uma avó atenciosa e vive em uma família de classe média. Os pais são politizados e acreditam que a revolução vai melhorar o Irã. Ela costuma ter conversas com Deus e o vê em seu quarto sempre que precisa conversar. Diz que vai ser profeta. A religião é uma questão muito importante no Irã.
Mas Marjane logo descobre que não será uma profeta. Ela começa a se interessar por política e ter opiniões fortes sobre o que vê. Ela vive um período em que os revolucionários e o governo se tornam inimigos. 
Ela passa a ser obrigada a usar o véu para cobrir a cabeça, as turmas na escola passam a separar meninos e meninas, as festas são proibidas, bebidas também. Não vou falar aqui dos desdobramentos políticos, mas o regime xiita mudou drasticamente a vida no Irã.

"Ninguém aceita a verdade" - Marjane cometendo sincericídios desde pequena :)
Na casa de Marjane, a família sempre conversou muito sobre tudo. E abertamente. Marjane cresceu consciente da situação política de seu país e isso a levou a ter alguns problemas. 
De sincericídios, a maioria deles.
Depois de ser expulsa de uma escola e de enfrentar a diretora da nova escola, seus pais ficaram com medo que ela fosse presa e executada. Então eles resolveram manda-la para a Áustria, aos 14 anos, para fugir da guerra. Lá, Marjane tenta aprender novos costumes e se adaptar a uma vida totalmente diferente da que tinha antes. Sabe aquele período da adolescência em que pensamos "quem sou? O que farei da vida?". Pois é, imagine-se nessa fase em outro país, longe da sua família. Não deve ter sido fácil.

Ou então, imaginem só se um de nós fosse morar no Irã. Talvez seja muito difícil para um ocidental perceber que o governo é que manda no que você pode vestir, ouvir, comer, fazer... Aliás, no Irã, casais só podem andar juntos se forem casados - e precisam comprovar isso se um agente do governo os parar na rua. Se não, as pessoas são presas por afrontarem a moral. Mulheres solteiras não podem andar pela rua acompanhadas de homens que não sejam seus parentes. Nem sozinhas. Vocês se adaptariam a algo assim? Eu, com certeza, não.
Do mesmo modo, imagina como uma iraniana se sentiria chegando em nossa cultura tão "vida loka"?
Talvez nós não sejamos capazes de entender a cultura iraniana, mas através do livro de Marjane, podemos entender o lado humano onde é tão simples nos identificarmos com os sentimentos dos personagens.

Sobre o regime xiita que tornou a vida no Irã um verdadeiro inferno
Depois de adulta, ao passar por diversos problemas, Marjane resolve voltar para o Irã em busca de encontrar-se em suas raízes. E então ela precisa se readaptar aos costumes de seu país e esquecer a liberdade que tinha no ocidente. O que também não é uma tarefa fácil, já que as mulheres são as maiores vítimas da repressão. Usar maquiagem por exemplo, é um meio sutil de protestar contra a ditadura islâmica. Nessa fase adulta de retorno ao Irã, Marjane namora, estuda, amadurece e ficamos cada vez mais envolvidos na leitura. Em todos os momentos, a história é marcada pelo humor quase sádico que permeia o livro inteiro. Particularmente, gosto mais dessa fase adulta. Acho que não gosto de adolescentes hahaha
Na fase adolescente, ela tenta esconder de onde vem para ser aceita pelos amigos ocidentais. Pessoas que nem sempre eram legais. Muitas vezes tive vontade de dar uns tapas e falar: miafilha, sai de perto dessas pessoas! Mas faz parte né? Quem nunca teve amigos que a mãe não gostava e proibia de andar por serem "más companhias"?


Uma coisa, porém, que não muda durante todo o livro é a relação com os pais. Sério, que pais incríveis! E a avó também, mas principalmente os pais. A relação de total confiança que eles desenvolvem com a filha é uma coisa bem legal de se ver. Eles acreditam e confiam na filha ao ponto de não fazerem perguntas quando ela pede que não o façam. Eles confiam que podem mandá-la com apenas 14 anos para outro país porque sabem a filha que tem, sabem que ela conseguiria se virar bem sozinha.
É uma relação de muito diálogo e de muita sinceridade. Esse retrato da família foi uma parte do livro que eu gostei muito!

Sem comentários
Quando eu li sobre Persépolis antes de comprar o livro, achava que seria um livro sobre a guerra, mas achei que Marjane seria uma ativista dos direitos da mulher no Irã. Mas ela não é. Persépolis conta a história de vida dela, de sua família e de como, independente de que país estejamos, somos todos humanamente iguais. 

Eu acredito que, assim como Chimamanda faz em seus livros ambientados na Nigéria, Marjane também deve ter tentado dar ao mundo uma imagem diferente sobre o Irã. Isso é meu julgamento, tá? Não estou dizendo que seja essa a motivação dela. Mas que eu quase posso ouvi-la dizer isso, ahhh posso.

Persépolis não é um livro sobre os terrores e os medos da guerra. É um livro sobre pessoas e seus conflitos gerados pela guerra, pelo regime xiita, pelos radicais. É sobre uma família que resolve mandar a filha encrenqueira para outro país para protegê-la dos absurdos que aconteceram no Irã. É sobre uma adolescente, longe da família, tentando achar seu lugar no mundo. É um livro sobre saudade, sobre descobertas e amadurecimento.
Não é um manifesto político, nem um livro sobre a história do Irã, mas sobre os vários pontos de vistas que podemos ter sobre o país, sua história e seu povo. 


A minha edição, como disse antes, é a completa publicada pela Companhia das Letras (selo Quadrinhos da Cia) - essa edição reúne os livros Persépolis I, II, III e IV e a qualidade gráfica é excelente.
Esse é o primeiro livro autobiográfico em quadrinhos que leio e gostei muito da experiência.
Também gostei do estilo da Marjane e de seu traço. E se alguém aí ainda acha que história em quadrinhos são coisas só para crianças, dá um pulinho na livraria e enfia o nariz nesse livro (eu poderia indicar outros também, mas vamos focar neste). Além de ser praticamente uma aula de história, o livro joga pela janela dois esteriótipos ao mesmo tempo: que quadrinhos são para crianças e que os árabes são uns fanáticos.

Novo-preferido ♥
Persépolis possui uma animação baseada no livro, com o mesmo nome. Antes de começar a trabalhar com quadrinhos, Marjane Satrapi não pensava em cinema, mas sua paixão pelas artes também a levou para esse lado. Persépolis virou filme para que seu alcance fosse maior. Sabemos que nem todo mundo vai pegar um livro para ler, mas um filme é mais fácil de ser assistido - ainda mais se for um desenho.
Vou deixar o trailer para que vocês confiram, mas como sempre, o meu conselho é que: leiam o livro e só depois vejam o filme!

Ahhh, só mais um detalhe: ele ganhou um Oscar de melhor animação!


Ps: o filme é em francês, só achei o trailer com legenda em inglês, mas pra assistir tem legendado em português, tá?
Procurem! rs


Classificação: 5 capuccininhos

14.7.15

Expresso faz 8


Oi pessoal!

Eu estava preparando um post-resenha quando lembrei que, para manter uma tradição, esqueci novamente o aniversário do blog (todo ano faço isso, poxa vida) rs.

Dia 12 de Julho o Expresso pra Dois fez OITO anos e tudo que eu posso pensar em dizer é: Obrigada!

Obrigada a você que me lê, obrigada a você que me cobra mais frequência aqui, obrigada a você que indica meu blog para as amigas, obrigada a você que coloca o Expresso nos seus favoritos, obrigada a você que acha que eu entendo pacas de algum assunto e me pede opinião, obrigada a você que lê os livros que eu indico, obrigada a você que se tornou meu amigo por causa desse blog, obrigada a você que me pediu o endereço pra mandar saquinhos de chá e amostra de café, obrigada a você que me mandou um vidrinho de sal grosso (foi útil, juro), obrigada a você que me acompanha lá na fanpage do blog, obrigada a você que me apoia no que eu faço aqui, obrigada a você que briga comigo quando digo que vou abandonar o blog, obrigada a todos vocês que continuam aqui, mesmo quando eu não estou. 

Obrigada a todos vocês pelo carinho nesses oito anos de Expresso pra Dois!





14.6.15

O Sol é para todos - Harper Lee

Oi pessoal.
Hoje eu vim falar sobre o último livro que li. O último mesmo, terminei de ler essa madrugada - porque não consegui dormir enquanto não terminei. E olha... que livro maravilhoso ♥ 


O título original é To Kill a Mockingbird, escrito em 1960 pela autora norte-americana Harper Lee. É um dos mais importantes clássicos da literatura e vencedor do Prêmio Pulitzer em 1961, um ano após a sua publicação. Vendeu mais de 40 milhões de cópias ao redor do mundo, foi traduzido para mais de 40 línguas e em 1962 virou um filme que também foi premiadíssimo: Oscar de melhor ator para Gregory Peck, Melhor roteiro adaptado, Melhor trilha sonora, entre outros. Ele também foi escolhido pelo Library Journal como o melhor romance do século XX e eleito pelos leitores do Modern Library um dos 100 melhores romances desde 1900.
Perceberam que essa história não veio ao mundo de bobeira, né?

Todo marcado kkkkk
Tratava-se de um livro raro e esgotado, até que algo extraordinário aconteceu.
A editora HarperCollins divulgou a notícia que chamou de um “acontecimento literário extraordinário”: a autora Harper Lee vai publicar um segundo romance 55 anos depois de seu clássico "O sol é para todos".
Uma amiga e advogada de Lee, encontrou o manuscrito junto com os originais de ' Sol é para todos' e convenceu a autora de que ele merecia ser publicado. Lee se disse surpresa ao encontrar o manuscrito após tantos anos, tinha se esquecido da existência dele e ficou muito em dúvida quanto a publicação. Ela pediu a opinião de amigos e pessoas próximas e graças a essas pessoas, o livro será laçado.

A nova obra que vai se chamar "Go Set a Watchman", foi escrita nos anos 50 e estava guardada até hoje porque Lee, que hoje com 88 anos, dizia-se satisfeita com o sucesso do primeiro livro e não achava o manuscrito tão bom quanto ele. O novo livro trará personagens que conhecemos (e amamos) no primeiro livro na fase adulta (minha adorada Scout ♥) e deve chegar ao mercado literário em Julho de 2015 (tá pertinho, socorro). Por isso também a minha "pressa" em falar logo dele aqui no blog: para que vocês tenham a oportunidade e o prazer de ler esse livro maravilhoso antes. Sim, porque graças a essa notícia bombástica no mundo literário, a Editora José Olympio (obrigada, seus lindos) relançou o clássico 'O Sol é para todos' numa edição linda e novinha em folha (vejam as fotos ao longo do post)! 
"Se você aprender um truque simples, vai se relacionar melhor com todo tipo de gente. Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas pelo ponto de vista dela. Precisa se colocar no lugar dela e dar umas voltas."
O livro conta a história da pequena Jean Louise (ou Scout), seu irmão 4 anos mais velho Jean e seu pai, o advogado Attticus. A história é narrada pelos olhos de Scout, que é uma menina esperta e inteligente (queria pra filha), sempre atenta aos acontecimentos ao seu redor. Scout e Jean são órfãos de mãe e foram criados pelo pai e pela empregada negra, Calpúrnia. Eles moram em Maycomb, um condado no sul dos Estados Unidos e a história se passa nos anos 30, logo após a Grande Depressão.


É impossível não se apaixonar pela Scout e sua curiosidade e ingenuidade. É bom lembrar que no começo do livro, ela tem cerca de 6 anos. Como a história é contada por ela, a narração tem essa característica inocente e muitas vezes o leitor já compreendeu o porquê de certas injustiças e convenções, enquanto Scout ainda tenta compreender. O tema central do livro é trabalhado através da compreensão que ela vai tendo do que acontece ao seu redor. 
“Tia Alexandra era obcecada pelas minhas roupas. Como eu podia querer ser uma mulher elegante usando suspensórios masculinos? Quando eu disse que usando vestido eu não conseguia fazer nada, ela retrucou que eu não devia fazer nada que exigisse calças compridas."
Scout conta as aventuras e travessuras que aprontou junto de seu irmão e do melhor amigo Dill. Eles exploram o perfil da sociedade naquela época, suas peculiaridades e seus defeitos. A cidade tem um terrível perfil antiabolicionista e as crianças tem uma dificuldade de entender as injustiças que presenciam. 
Scout, Jean e Dill passam o verão juntos. Um dia, resolvem descobrir porque o vizinho Arthur Raddley vive recluso e nunca é visto. As crianças bolam planos mirabolantes e fantasiosos para fazer Arthur sair de casa. A partir desse acontecimento (Scout acha que foi a partir disso), a história se desenrola para uma série de acontecimentos e o leitor se vê envolvido em uma história racismo, discriminação, preconceitos históricos e direitos humanos.


Para colocar ordem nessa balbúrdia com o vizinho, temos Atticus que é um homem justo e um super pai para as crianças, que o amam e respeitam mais do que qualquer coisa no mundo (e eu também).
Atticus é advogado e vive uma rotina tranquila, mas se envolve num caso polêmico que acaba mudando a sua rotina, das crianças e de toda a sociedade local. Sociedade essa, que é extremamente preconceituosa e vive um período histórico que foi muito difícil para os negros. Era (ou é?) uma realidade muito cruel e injusta. Nesse cenário, Aticcus é nomeado para defender um negro, Tom Robinson, acusado de estuprar uma mulher branca. O comportamento dos moradores de Maycomb muda drasticamente, as pessoas mostram seu pior lado e tudo isso é acompanhado pelo olhar de Jean e Scout. As crianças e seu pai se tornam alvo de descriminação por causa de Tom Robinson.
"-Quase todo mundo acha que está certo e que você é que está errado.
-Essas pessoas têm o direito de pensar assim, e têm todo o direito de ter suas opinião respeitada - considerou Atticus - Mas antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho que conviver comigo mesmo. A única coisa que não se deve curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa."
'O Sol é para todos' é um livro atemporal e discute situações que poderíamos muito bem estar lendo nos jornais de hoje. Uma vez que começamos a ler, nos vemos envolvidos com a história e não conseguimos largar. A narrativa é fluida, a linguagem é simples e é muito fácil de acompanhar. Os personagens são muito bem construídos, tanto os principais quanto os secundários. Você quase pode supôr a reação que terão na página seguinte após um ou outro acontecimento de tão bons que são. Eu sempre me interessei por esse livro, mas como disse no começo, ele era esgotado e difícil de encontrar (e quando encontrava, custava caro). Nesse caso, a fama faz a cama e tudo que se fale dele ainda é pouco.
Desde o título 'To kill a Mockingbird' que faz todo sentido na narrativa (e se você prestar atenção, é a mensagem do livro) até a questão filosófica central (que também encaixa perfeitamente no nome traduzido da obra), passando pela humanidade e o caráter de Átticus transmitido para seus filhos e o amadurecimento de Scout e Jean, arrisco dizer que é o melhor livro de 2015 e um dos melhores que já li na vida. Será difícil que um outro livro o supere tão em breve - talvez o próximo de Harper Lee... Será?

“As coisas sempre são melhores pela manhã” 

Eu estou ansiosa pelo lançamento do próximo livro! E vocês?

7.6.15

Entrevistando Fernanda Nia

A Entrevista

Fernanda Nia é a autora do supersensacional site "Como eu realmente", que não canso de dizer, é um dos mais legais que eu acompanho.
Para quem não conhece o trabalho da Fernanda, a sua série de tirinhas mostra uma menina chamada Niazinha que tem uma imaginação fértil e gosta de coisas que muitas de nós gostamos: internet, docinhos e gatinhos ♥ A Niazinha expõe nas tirinhas como as coisas acontecem e como ela realmente as imagina ou como gostaria que acontecessem. É fácil se identificar e se apaixonar pelas histórias e situações que lemos.

No ano passado, eu estive no lançamento do Volume 01 do 'Como eu realmente' e contei toda pagação de mico a experiência aqui. Vocês lembram? Caso não estejam lembrados, cliquem aqui porque teve tietagem, aparição em vídeo e tudo o mais.
Quando soube do lançamento do Volume 02, tive uma ideia estúpida incrível de criar um conteúdo bacana aqui para o blog. Falei com a Fernanda, ela topou (ai gente, sério, muito fofa) e eu fui lá, munida de câmera, coragem e muita vergonha gravar um vídeo com ela ♥

Assim nasce a primeira entrevista aqui do Expresso com essa linda da Fernanda Nia, direto do lançamento do seu segundo livro: Como eu realmente - Volume 02!

Algumas considerações antes do play:
Pessoal, esse é o primeiro material em vídeo que eu produzo para o blog. Com ele, vieram alguns erros e acertos que vocês vão perceber ao longo do vídeo. O principal é que tive um problemão pra editar o áudio por gravar sem microfone em um local movimentado. A área onde a livraria me autorizou gravar, ficava muito próxima ao café e isso dificultou ainda mais a minha vida. Ou seja: pre-ci-so de um microfone. Isso significa que só farei vídeos e entrevistas para o blog quando conseguir trocar meu equipamento. 
Peço desculpas por não ter ficado perfeito como eu gostaria, eu não consegui acertar o foco 100% (óbvio, não estava vendo) e bom, é isso.
O vídeo não ficou como eu tinha sonhado, mas a Fernanda foi tão fofa, que além de querer apertar muito ela, tive que dar um jeito de postar aqui para que vocês tenham a mesma vontade ♥


Minha opinião sobre o livro:


Essa edição está tão caprichada quanto a primeira, Editora Nemo como sempre de parabéns.

Em comparação ao volume 01, eu gostei muito desse novo livro pela abordagem.
Fernanda Nia trabalhou de forma leve sobre assuntos como: preconceito, feminismo, haters e o livro está cheio de comentários legais da autora sobre esses assuntos.
Fora que as situações que a Niazinha vive são super divertidas.
Me identifiquei muito com uma tirinha onde, não concordando com a opinião de uma pessoa, a Niazinha faz exatamente o que eu faço quando isso acontece: passa direto preocupada com o almoço =D
(Digo e repito: Dá pra discordar do coleguinha sem odiá-lo por pensar diferente, pessoal! Juro bem juradinho!)


Assim como no livro anterior, o volume dois também segue o formato do site: as tirinhas vêm acompanhadas por comentários super divertidos da autora. 
Por exemplo, na tirinha sobre viagens, gostei muito do comentário que ela fez: "É bem mais prático ter uma mala hipercolorida e espalhafatosa que uma cinza e sem graça. Quando eu preciso encontrá-la na esteira do aeroporto, por exemplo, é só seguir a trilha de blogueiros de moda desmaiados pelo chão". Sério, gente, como não amar essa mulher? hahaha


Com um humor sutil e o traço que conquistou tanta gente, Fernanda conseguiu manter o mesmo padrão do livro anterior. Essa edição está super divertida e impecável. O humor dos quadrinhos é sutil, inteligente e nada escrachado. É o tipo de coisa que você lê e se identifica. Acho que todos nós temos a imaginação um pouco esquisita também. O livro tem uma parte dedicada aos leitores, uma brincadeirinha tipo "Onde está Wally?", só que com a Niazinha.
Além disso, essa edição também tem uma surpresa (que eu amei): uma parte em HQ. Ou seja, uma historinha corrida, diferente do formato das tirinhas ♥


Ou seja, resumindo: Fernanda Nia arrasa! Comprem, leiam e divirtam-se antes que a Srta Garrinha conclua seus planos de dominação mundial e sejamos obrigados a ser seus súditos fiéis :)





Classificação: 5 Capuccininhos

6.5.15

Passarinha - Kathryn Erskine


Livro bonito, bem construído e com o poder de aquecer o coração de quem lê? Tá tendo!
“Embora eu não gostasse da empatia ela é uma coisa assim que chega sem avisar e faz você sentir um calorzinho gostoso no coração.”
Passarinha foi o primeiro livro que li em 2015 e ao pensar em trazer uma resenha para o blog, não pude pensar em outro. Ele é tão lindo, que a minha vontade é comprar vários e sair distribuindo.

A autora,  Kathryn Erskine, ganhou vários prêmios com esse livro, inclusive o National Book Award 2010.
Kathryn mora no estado da Virgínia, onde aconteceu um massacre na Virginia Tech University, em 2007. A autora ficou profundamente chocada com o acontecido. Ela queria entender como uma família sobrevive a uma tragédia como esta, então ela relacionou a história da violência, o impacto que um caso assim causa na vida das pessoas e de uma comunidade e como uma criança com necessidades especiais lidaria com algo assim.
Em Passarinha, a personagem principal tem a síndrome de Asperger, assim como a filha da autora. Seu objetivo sempre foi que as pessoas compreendessem melhor como é o mundo através dos olhos de um portador da síndrome de Asperger. A menina do livro não é a filha de Kathryn, mas ela emprestou várias coisas que vivenciou com a filha para a personagem. Se você quiser entender melhor o que é essa síndrome e como ela afeta a inteiração social de seus portadores, clique aqui.
Ou melhor, dediquem 4 minutinhos do seu tempo para ouvir a própria autora explicar um pouquinho:


Passarinha é um livro de sutilezas e simplicidades cativantes.
Antes de iniciar a leitura da narrativa, existe uma nota de esclarecimento da tradutora, Heloisa Leal, explicando a construção da autora: o jogo de palavras, a existência de palavras com letra maiúscula no meio das frases, a ênfase de como as palavras representam o pensamento da personagem, as relações de simetria entre palavras iguais com significados diferentes e tudo o que torna esse livro uma experiência única de inserção em um mundo tão diferente do nosso.

Como o grande objetivo de Kathryn era que as pessoas pudessem enxergar o mundo como Catlin, a personagem principal, enxerga e assim entender melhor o mundo do portador de Asperger, o livro é contado em primeira pessoa.
Isso significa que Passarinha é um mergulho na mente confusa de uma criança com Asperger. Você só vai saber o que ela sabe, você só vai entender o que ela conseguir entender.
E é aí que a essência do livro se revela.
“Eu gosto das coisas em preto e branco. Preto e branco é mais fácil de entender. Cor demais confunde a cabeça da gente.”
Caitlin tem apenas dez anos e tem síndrome de Asperger. Ela está enfrentando uma grande tragédia familiar e precisa lidar com isso, além de ajudar o pai a superar perdas irreparáveis. Mas Caitlin não sabe como fazer isso. Muitas coisas ela não consegue entender, mas sabe que algo precisa ser feito para que possam seguir suas vidas.
O título original do livro é Mockinbird, em referência ao filme “To Kill A Mockingbird” (O Sol É Para Todos). O livro faz várias referências ao filme e é também um jeito que Devon, irmão de Catlin, usa para que a irmã entenda determinadas coisas. O irmão a chama pelo mesmo apelido da menina do filme, Scout. A família de Devon e Catlin é igual a do filme: um pai que cuida sozinho dos filhos porque a esposa morreu. Essa referência facilita a compreensão que Catlin tem da própria família. 

A gente tende a pensar que os autistas não sabem conviver com as pessoas, mas a verdade é que as pessoas é que não sabem conviver com eles. Querem exigir que eles  se comportem e tenham atitudes como as nossas e por muitas vezes tentamos ensinar coisas que, se pararmos pra pensar, não fazem muito sentido nem para nós mesmos. Por exemplo, como você quer ensinar uma criança a manter o controle se você perde a paciência com ela e não consegue se controlar?
A autora nos mostra como a paciência é importante e mais do que isso, como as palavras tem o poder de construir pontes e elos.
Para Catlin é difícil "captar o sentido" do que as pessoas querem dizer. Ela não gosta de olhar nos olhos das pessoas, não gosta que invadam seu espaço e nem que toquem nela. Catlin gosta de ler livros e dicionários porque considera eles mais fáceis de entender - ao contrário das pessoas, livros não mudam de opinião. 
Graças ao dicionário, Catlin lê a palavra "desfecho" e ao tentar compreender o significado, se convence que é exatamente o que ela e seu pai precisam: um desfecho. Mas ela não sabe como conseguir isso e nem como fazer esse desfecho acontecer, mas está determinada a alcançá-lo de qualquer jeito.
O bom dos livros é que as coisas do lado de dentro não mudam. As pessoas dizem que não se pode julgar um livro pela capa mas isso  não é verdade porque a capa diz exatamente o que tem dentro. E não importa quantas vezes você leia aquele livro as palavras e imagens não mudam. Você pode abrir e fechar os livros um milhão de vezes que eles continuam os mesmos. [...] Livros não são como pessoas. Livros são seguros.
Catlin sabe que é diferente das outras crianças, mas não se sente tão diferente assim. Ela sabe que tem dificuldades que precisa enfrentar, mas não aceita ser chamada de "doente". A determinação que ela tem de enfrentar os próprios limites e superar a si mesma a todo instante, é de uma força comovente.
Tentando ajudar o pai a superar a dor que ele sente, Catlin acaba por descobrir o próprio caminho e a si mesma, descobrindo um novo modo de perceber o mundo, relações de amizades, cores, empatia...  Sua visão de mundo é comovente e cativante, apesar de toda a dificuldade que ela enfrenta para entender o mundo, as pessoas, as relações e a si própria. É um livro fascinante e cheio de ternura que encheu meu coração de amor. É emocionante, podem acreditar em mim porque eu não posso deixar de recomendar a leitura dessa obra de arte!

E... Gente... E essa capa maravilhosa? Eu fiquei apaixonada! ♥ Palmas para a Editora Valentina que fez um trabalho lindíssimo!
O ninho, a menininha encolhida no ninho, as cores da capa, a diagramação... Não dá muito mais prazer de ler um livro quando a capa é linda assim? Ao olhar essa capa, a contracapa e a primeira página que lista todos os prêmios que a autora ganhou com ele, uma curiosidade fulminante me consumiu e eu tive que comprar. Devorei o livro em três dias e lamentei quando acabou!
Com palavras simples e contando a história de um jeito extraordinário e inovador, Kathryn Erskine me conquistou num nível, que eu queria ir lá na Virginia dar um abraço nela!

Passarinha não é um livro depressivo, é triste, mas é uma tristeza que é muito bonita. Você tem a exata sensação que a personagem principal está te ensinando alguma coisa muito valiosa, que vai te fazer evoluir de algum modo.
Acima de tudo, é um livro sobre compreender as diferenças entre o mundo que você vê e o mundo que outras pessoas vêem.
É um livro encantador sobre o quanto nossa vida pode ser melhor se aprendermos a compreender uns aos outros.

Classificação: Cinco capuccininhos


Ps: No site da autora (kathyerskine.com) existe um rico material sobre autismo e síndrome de Asperger, endereços úteis, links para artigos, fontes de pesquisa e vários materiais para educadores que trabalham com crianças especiais. Fica a dica!

Carolina! Na verdade se chama Ana Carolina e não gosta de ser chamada de Ana. Não revela a idade, mas todo mundo diz que aparenta bem menos. Fotógrafa e estudante de Jornalismo. Mudou de área depois de anos insatisfeita com a profissão. Carioca, apaixonante e implicante. Carinha de 8, espírito de 80 anos. Chata, mal humorada e anti-social. Gosta de rimas simples, de frases bobas e é viciada em café. Na vida passada foi um gato tamanha preguiça. Tem mania de ter manias, coleciona coisas inúteis e acha ridículo isso de falar de si mesma em 3º pessoa.

 
Expresso pra Dois © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Rafaela Melo :: voltar para o topo