31.8.15

31/08 - Blog Day 2015


Repetindo o sucesso do ano passado, hoje é dia de mais um BlogDay ♥
Pra quem é blogueiro com cheiro de nata e não sabe o que é o BlogDay, é o seguinte:
Nós, galera da antiga, old school, os vovôs dos blogs, tínhamos o costume de comemorar todo 31/08 o dia do blog.
Neste dia, todos os blogueiros do seu grupinhos de amigos (e dos grupinhos dos outros também) faziam um post especial indicando 5 blogs da sua lista de preferidos. Assim, o coleguinha de um ia conhecendo o coleguinha de outros e o clima de amor e harmonia se espalhava por toda blogosfera e...

Tá, parei!
Mas como eu ia dizendo, o BlogDay era uma prática antiga dos blogs mais, digamos, experientes.
Quando os blogs começaram a deixar de ser pessoais e passaram a negócio, essas bobagens de inteiração entre blogueiros foi ficando pra trás.
Porém, o grupo mais maravilhosudo do facebook, o Rotaroots ♥, resolveu no ano passado reviver essa comemoração e esse ano tem também. E se reclamar 2016 faremos novamente ♥

Ps: Se você é blogueiro e não conhece o Rotaroots, sinto informar, mas está comendo muita mosca nessa vida! Fica a dica.  


Mas sem mais delongas, vamos ao que interessa!



5 blogs que não saem do meu feed 

• 187 Tons de Frio - Gabriela Melo
Esse não sai dos meus feeds há anos e anos mesmo ♥ Amizade blogueira old school desde sempre ♥

O Mundo de Karolyn - Karolyn Petrucci
Karol é minha amiga, é uma linda, é mamãe de cinco gatinhos fofos e irmã da guria mais fofa de todo Rio Grande ♥

A Gabi também é da galera old school. Sempre li os blogs que ela teve ao longo dos tempos e agora ela voltou a escrever. Continuo seguindo ♥

Elos no Horizonte - Alexandre Lúcio Fernandes
Minha porção de poesia sempre que a vida parece feia e sem cor ♥

Palavras e Silêncio - Maria Fernanda Probst
Inspiração, amor e delicadeza - minha porção de poesia versão feminina. Desde sempre ♥

(Muitos, muitos corações nessas indicações)

5 blogs que eu conheci no Rotaroots


Mulher Vitrola - Rê Montenegro
Sério? Como não amar uma pessoa que fala de cozinha, gatos, batom vermelho, feminices e tantas outras coisas?

Borboletando - Victoria Siqueira
Me ganhou num post onde listava lições aprendidas com as Spice Girls e na lista de motivos que ser fangirl nos anos 90 era muito mais sofrido que hoje. Apenas acompanhem essa moça!

Quero ser Alice - Erika Monteiro
A Erika tem sido uma fonte de inspiração. A seção "Papo Fitness" do blog tem me feito repensar muito as minhas atitudes e tem me incentivado a deixar a preguiça de lado.

A Life less ordinary - Cacá
O objetivo do blog da Clarissa é registrar as coisas que a fazem feliz. Eu fico lá babando nas lindezas. Quase nunca comento, mas adoro os posts dela!

Babee
O blog da Babee parece um agregador de coisas legais. Cheio de dicas legais, indicações bacanas de apps, jogos, decoração, música.. .tem de tudo!


5 blogs para sair da rotina

Think Olga
Site feminista com os textos mais esclarecedores ever. Tudo sobre emponderamento e muito girl power!
Sem contar a campanha "Chega de fiu-fiu" que eu apoio e sempre vou apoiar aqui no blog!

• Sernaiotto - Paloma Sernaiotto
Se você quer sair da rotina e colocar seu blog pra crescer, no blog da Lominha está tudo que você precisa aprender para ser um blogueiro lindo, top de linha, capa de revista!

Literasutra - Monalisa Marques
Ultimamente o blog da Monalisa é o meu preferido quando o assunto é literatura! A Monalisa nunca faz spoilers nas resenhas dos livros e ela é uma guria muito divertida. Apenas amo ♥

• Championship Chronicles - Rob Gordon
As melhores crônicas da internet, meus amigos! Eu adoro o Rob e adoro as coisas que ele escreve. Se você gosta de crônicas é o blog ideal pra acompanhar!

Sarah Andersen
Sarah é autora das tirinhas que eu mais leio ultimamente: Doodle Time.
Eu apenas me identifico tanto que chego a pensar que ela tem algum espião rondando minha casa.


E é isso!
Feliz Blog Day!



7.8.15

Léxico - o livro que não consegui parar de ler.


Compraria só pelas capas.
“Ela não curtia realmente ler, mas gostava do modo como os livros eram pistas. Cada um deles era uma peça de um quebra-cabeça. Mesmo quando não se encaixavam, elas revelavam um pouco mais sobre que tipo de imagem ela estava formando.” 
Existem livros que nos arrebatam de tal modo, que não conseguimos parar de ler até a última página. 
E também não queremos que cheguem na última página.
Foi assim com Léxico, do autor Max Barry.
Eu tinha acabado de inserir novos arquivos no meu Kobo e estava conferindo se todos abriam sem erros.
Abri esse livro, estava muito interessada nele depois de ler a sinopse, mas não era minha intensão ler naquele momento. Eu estava lendo outros dois e queria terminá-los antes de começar mais um - é claro.
Mas algo aconteceu entre o ato de simplesmente abrir o arquivo do livro e chegar na página 100.
Isso me rendeu até um selinho engraçado de conquistas no Kobo:

Pra quem não sabe, o Kobo tem essas brincadeirinhas de liberar selos confirme você conquista desafios :)
Pois é gente, prendeu mesmo e eu não consegui parar de ler esse livro. 
Mas vamos lá.
Sinopse:
Léxico - Uma organização treina jovens talentosos para controlar a mente e o comportamento das pessoas usando combinações específicas de palavras. Os iniciados deixam suas verdadeiras identidades para trás e passam a usar nomes de poetas.
Identificada como um prodígio na arte da persuasão, Emily Ruff, que ganha a vida com truques de cartas nas ruas de São Francisco, é enviada para o treinamento em uma escola da organização e começa a aprender a técnica letal. Quando os líderes da instituição descobrem que ela está se envolvendo com outro aluno, Emily recebe uma missão aterrorizante.
Wil Parke, carpinteiro, sofre de amnésia. Um dia ele já soube o significado da palavrárida, um artefato com o poder de colocar o planeta em risco. No entanto, não lembra mais. Wil é sequestrado por dois agentes brutais, que acabaram de matar sua namorada, desesperados para impedir que um membro da organização, de codinome Virginia Woolf, cause uma grande destruição.
Em seu novo livro, Max Barry constrói uma trama sombria na qual as palavras são como armas e os tipos mais vis usam como pseudônimos grandes nomes da literatura.


Quando eu era pequena, minha avó me dizia coisas como "muito cuidado com o que você diz, as palavras tem poder". Minha amiga Juliana sempre me repreende quando digo algo derrotista. Segundo ela, o que você diz influencia o que você recebe de volta do universo. A filosofia da minha avó e da minha amiga Juliana vieram a calhar com o enredo do livro. Isso porque em Léxico, palavras são mais perigosas do que armas. E vejam vocês, as pessoas mais perigosas do mundo, são os poetas!

Só um parênteses: Léxico, pode ser definido como o conjunto de palavras em uma língua - dicionário, repertório, grupo de palavras úteis e etc.

A história não chega a ser uma distopia, não se passa em um mundo destruído, com uma realidade oposta à que vivemos. Se eu posso fazer alguma relação, seria como se fosse uma Matrix - existem coisas acontecendo em algum lugar do mundo, mas a maioria das pessoas não tem ciência disso. Nessa realidade paralela, existe uma organização secreta que recruta e treina jovens para controlarem o uso das palavras. Eles se interessam por pessoas que demostram talento com as palavras, principalmente os que tem talento para a persuasão. E um dia, agentes dessa organização encontram Emily Ruff, que é uma garota jovem, simples, que vive de golpes aqui e ali. Ela fugiu de casa muito cedo e ganha a vida trapaceando em jogos de cartas. 
Ao chegar na Academia e conhecer os outros alunos, Emily arruma uma grande confusão porque não consegue encaixar. Ela é uma trapaceira, impulsiva e não lida bem com regras, mas acaba ficando porque seu mentor insiste com a diretora do local que a menina tem um grande talento a ser lapidado.
"Você pode ser uma pessoa inteligente, mas, se deixar outra pessoa filtrar o mundo para você, não tem como analisar criticamente o que está ouvindo"
Os membros dessa organização, aqueles que dominam seu léxico e são capazes de manipular qualquer pessoa apenas com o "dom da palavra", recebem nomes de poetas famosos.
Cada aluno, ao se formar, também recebe o nome de um poeta e esse passa a ser seu nome para sempre. Assim, as pessoas dessa academia passam a ser extremamente perigosas.
Emily não acredita que se encaixe entre aquelas pessoas, mas conforme seu talento vai sendo lapidado, sua mente se expande e ela começa a se destacar.
Pode parecer algo bom mas não é, porque Emily possui uma personalidade incontrolável. Uma Divergente, ops, livro errado.


Na Academia, as aulas ensinam que existem vários tipos de personalidades (segmentação) e como cada uma pode ser suscetível a um conjunto de palavras. Existem palavras que são capazes de manipular, de tornar o cérebro da pessoa receptivo à ordens e desfazer as barreiras de proteção de qualquer pessoa de acordo com sua personalidade. Para saber como manipular alguém, basta observar a sua personalidade para descobrir qual é o seu segmento e quais são as palavras adequadas a serem usadas. 
A coisa mais perigosa para um poeta é deixar transparecer qual é o seu segmento, porque assim ele seria facilmente manipulado. Os poetas escondem todos os traços de sua personalidade, seus desejos, suas expressões - tudo é sistematicamente controlado. Uma mera ruguinha de expressão pode ser fatal.
"Eliot era tão indecifrável quanto um tijolo"
Ao mesmo tempo que conhecemos Emily e tentamos entender a organização e os poetas, vemos um homem sendo sequestrados por agentes misteriosos que estão fugindo dos poetas.
Will Parke não tem a mínima ideia do que está acontecendo e não acredita em nada do que os agentes lhe falam. Ele não consegue entender se está sendo sequestrado ou salvo. Salvo de quem? Ele não sabe, mas obviamente estão sendo perseguidos por pessoas que o querem morto. Alguma coisa em Will, faz com que esses agentes e os poetas tenham interesse nele. Por algum motivo, acredita-se que ele é a única pessoa capaz de resistir à manipulação das palavras. No passado, Will soube o significado de uma palavra muito perigosa, mas esqueceu-se, teve uma amnésia. 
Essa palavra perigosa, foi capaz de destruir uma cidade inteira causando a morte de mais de três mil pessoas. E a palavra continua lá em algum lugar, porque todos que tentaram entrar na cidade depois disso, não voltaram.
Os poetas querem a palavra de volta, os agentes querem impedir que eles consigam e Will precisa acreditar nessa loucura e tentar ficar vivo.
"- Não entendo como pode ser uma palavra.
– É porque você não sabe o que são as palavras.
– São sons.
– Não, não são. Você e eu não estamos grunhindo um para o outro. Estamos transferindo significado. Transformações neuroquímicas estão ocorrendo em seu cérebro neste exato momento por causa de minhas palavras."
Agora é a parte da resenha em que eu preciso parar de falar para não cometer o grande pecado do spoiler (quase tudo que falei está na sinopse também, tá?).
Analisando a construção dessa história, consigo identificar uma crítica do autor que vou explicar aqui. Existem livros, palestras, cursos e workshops sobre uma metodologia de linguagem e comunicação chamada "Programação neurolinguística" (PNL). Não vou me aprofundar nesse caso (pros curiosos: google it), mas a PNL é usada para "programar a mente" das pessoas através de uma comunicação mais positiva. 
Aqui cabem aqueles livros que vemos (geralmente misturados erroneamente) no meio das seções de auto-ajuda. Livros chamados (títulos fictícios) "Como vender qualquer coisa para qualquer um", "Como fazer amigos", "Como convencer seu chefe a te promover", "Como influenciar seus amigos" e blablabla. O que esses livros trazem, são métodos de linguagem assertiva. A PNL pretende ensinar uma comunicação que é melhor recebida pelas pessoas. Aquela coisa de "saber qual argumento usar com cada pessoa", "vender seu peixe" ou "convencer a pessoa porque falou com jeitinho". A PNL vai muito além disso e falando assim parece papo de treinamento de vendedor (e é também, mas não só). Porém, como disse, não vou me alongar e isso pode ser só uma impressão minha que encaixa muito bem na história.


Eu achei uma sacada genial que os vilões serem poetas! Vejam bem, se no livro as palavras são perigosas, quem poderia ser mais perigoso do que pessoas que dominam a palavra? 
Então temos personagens chamados Virginia Woolf, T.S. Eliot, Charlotte Brönte, W. B. Yeats... E todos esses personagens são muito bem trabalhados, cada um tem sua história e suas características e o leitor fica interessado em cada um deles. A visceral Emily, o confuso Will, o enigmático Eliot, a perigosa Virgínia Wollf: todos personagens maravilhosos, indecifráveis e emocionantes.

Max Barry construiu uma trama complexa e eletrizante, que nos prende desde o começo. 
Pode ser meio confuso no começo, porque a história já começa em meio a um caos generalizado, mas existem pontes e um personagem específico que guia o leitor para a compreensão. A história não é clichê, é bem diferente do que vem sendo publicado atualmente. Um thriller original, fascinante e extremamente bem contado, cheio de reviravoltas e surpresas durante o decorrer da trama.

Me faltam adjetivos - talvez eu deva estudar linguística para expandir o meu léxico, mas agora fiquei com medo porque descobri o quanto palavras podem ser perigosas.


Classificação: 5 capuccininhos



Ps: Meu aniversário é em setembro e 
já estou aceitando o livro físico de presente.
Minha estante agradece ♥

30.7.15

Persépolis - Marjane Satrapi

Ao longo da vida, todos nós (leitores) elegemos aqueles que são nossos livros preferidos.
Alguns deles permanecem nesse posto para sempre, enquanto outros perdem lugar para novos preferidos. Isso tem a ver com o momento que vivemos, com quem somos no momento que lemos determinado livro e na maneira como nos identificamos com determinadas histórias ou personagens.
Outros livros acabam sendo os favoritos de uma fase ou de um momento nas nossas vidas. Certos livros, porém, chegam de repente e atropelam outros que estavam esperando para serem lidos ou que estavam na fila para se tornarem os nossos novos favoritos. 
Porém, o coração de um leitor é como um coração de mãe: sempre cabe mais um!

O livro de hoje me foi recomendado por quatro pessoas diferentes. E por quatro pessoas que eu confio muito no bom gosto literário. Por isso, na primeira oportunidade que tive, adquiri este que se tornou um dos meus novos preferidos. E eu vou dizer os motivos já já.


Sinopse:
"Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico, numa sala de aula só de meninas. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita - apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa.
Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares.
Em Persépolis, o pop encontra o épico, o oriente toca o ocidente, o humor se infiltra no drama - e o Irã parece muito mais próximo do que poderíamos suspeitar."

"Para me despertar, meus pais me deram uns livros" - melhor despertar possível

Antes de falar do livro, gostaria de falar sobre o Irã. Quer dizer, o que eu realmente sabia do Irã? 
Na minha cabeça o Irã é: tiro, porrada e bomba. No ocidente, o que sabemos do Irã se resume a algumas coisas sobre islamismo, outras sobre a disputa com os Estados Unidos, guerras, energia nuclear e (sim) preconceito influenciado e televisionado pela mídia e suas coberturas jornalísticas sensacionalistas.

No meu primeiro ano da faculdade, conheci a supersensacional escritora Chimamanda Adichie, que em uma palestra para o TED, mostrou que o que acontece com o Irã, acontece com a Nigéria. O que se fala de um povo na mídia, influencia a imagem que temos dele. Com isso, criamos em nossa mente uma única história sobre países que não conhecemos: a Nigéria é um país pobre, o Irã é um país em guerra. 
Quando comecei a ler Persépolis, logo notei que eu tinha em mente uma única história sobre o Irã. Mas, assim como ler os livros da Chimamanda me mostrou uma Nigéria que eu não conhecia, Persépolis me apresentou o Irã.

Marx e Deus são parecidos, só muda o cabelo crespo
A edição que eu comprei, é essa que traz a história completa. Mas eu sei que ele é vendido em Parte I, II, etc... Então, foquem nessa aqui!
Persépolis é um livro auto-biográfico em formato de quadrinhos. A personagem principal é a própria Marjane, que começa o livro com 10 anos, tentando entender os rumos da revolução em seu país: o Irã. Essa revolução derrubou o regime autoritário do Xá Reza Pahlevi para dar lugar a República Islâmica. Aquelas aulas que tivemos sobre a revolução na escola não podem ser comparadas à visão de quem viveu lá, nesse período. 
Marjane tem amigos, frequenta a escola, gosta de livros, tem um tio comunista, uma avó atenciosa e vive em uma família de classe média. Os pais são politizados e acreditam que a revolução vai melhorar o Irã. Ela costuma ter conversas com Deus e o vê em seu quarto sempre que precisa conversar. Diz que vai ser profeta. A religião é uma questão muito importante no Irã.
Mas Marjane logo descobre que não será uma profeta. Ela começa a se interessar por política e ter opiniões fortes sobre o que vê. Ela vive um período em que os revolucionários e o governo se tornam inimigos. 
Ela passa a ser obrigada a usar o véu para cobrir a cabeça, as turmas na escola passam a separar meninos e meninas, as festas são proibidas, bebidas também. Não vou falar aqui dos desdobramentos políticos, mas o regime xiita mudou drasticamente a vida no Irã.

"Ninguém aceita a verdade" - Marjane cometendo sincericídios desde pequena :)
Na casa de Marjane, a família sempre conversou muito sobre tudo. E abertamente. Marjane cresceu consciente da situação política de seu país e isso a levou a ter alguns problemas. 
De sincericídios, a maioria deles.
Depois de ser expulsa de uma escola e de enfrentar a diretora da nova escola, seus pais ficaram com medo que ela fosse presa e executada. Então eles resolveram manda-la para a Áustria, aos 14 anos, para fugir da guerra. Lá, Marjane tenta aprender novos costumes e se adaptar a uma vida totalmente diferente da que tinha antes. Sabe aquele período da adolescência em que pensamos "quem sou? O que farei da vida?". Pois é, imagine-se nessa fase em outro país, longe da sua família. Não deve ter sido fácil.

Ou então, imaginem só se um de nós fosse morar no Irã. Talvez seja muito difícil para um ocidental perceber que o governo é que manda no que você pode vestir, ouvir, comer, fazer... Aliás, no Irã, casais só podem andar juntos se forem casados - e precisam comprovar isso se um agente do governo os parar na rua. Se não, as pessoas são presas por afrontarem a moral. Mulheres solteiras não podem andar pela rua acompanhadas de homens que não sejam seus parentes. Nem sozinhas. Vocês se adaptariam a algo assim? Eu, com certeza, não.
Do mesmo modo, imagina como uma iraniana se sentiria chegando em nossa cultura tão "vida loka"?
Talvez nós não sejamos capazes de entender a cultura iraniana, mas através do livro de Marjane, podemos entender o lado humano onde é tão simples nos identificarmos com os sentimentos dos personagens.

Sobre o regime xiita que tornou a vida no Irã um verdadeiro inferno
Depois de adulta, ao passar por diversos problemas, Marjane resolve voltar para o Irã em busca de encontrar-se em suas raízes. E então ela precisa se readaptar aos costumes de seu país e esquecer a liberdade que tinha no ocidente. O que também não é uma tarefa fácil, já que as mulheres são as maiores vítimas da repressão. Usar maquiagem por exemplo, é um meio sutil de protestar contra a ditadura islâmica. Nessa fase adulta de retorno ao Irã, Marjane namora, estuda, amadurece e ficamos cada vez mais envolvidos na leitura. Em todos os momentos, a história é marcada pelo humor quase sádico que permeia o livro inteiro. Particularmente, gosto mais dessa fase adulta. Acho que não gosto de adolescentes hahaha
Na fase adolescente, ela tenta esconder de onde vem para ser aceita pelos amigos ocidentais. Pessoas que nem sempre eram legais. Muitas vezes tive vontade de dar uns tapas e falar: miafilha, sai de perto dessas pessoas! Mas faz parte né? Quem nunca teve amigos que a mãe não gostava e proibia de andar por serem "más companhias"?


Uma coisa, porém, que não muda durante todo o livro é a relação com os pais. Sério, que pais incríveis! E a avó também, mas principalmente os pais. A relação de total confiança que eles desenvolvem com a filha é uma coisa bem legal de se ver. Eles acreditam e confiam na filha ao ponto de não fazerem perguntas quando ela pede que não o façam. Eles confiam que podem mandá-la com apenas 14 anos para outro país porque sabem a filha que tem, sabem que ela conseguiria se virar bem sozinha.
É uma relação de muito diálogo e de muita sinceridade. Esse retrato da família foi uma parte do livro que eu gostei muito!

Sem comentários
Quando eu li sobre Persépolis antes de comprar o livro, achava que seria um livro sobre a guerra, mas achei que Marjane seria uma ativista dos direitos da mulher no Irã. Mas ela não é. Persépolis conta a história de vida dela, de sua família e de como, independente de que país estejamos, somos todos humanamente iguais. 

Eu acredito que, assim como Chimamanda faz em seus livros ambientados na Nigéria, Marjane também deve ter tentado dar ao mundo uma imagem diferente sobre o Irã. Isso é meu julgamento, tá? Não estou dizendo que seja essa a motivação dela. Mas que eu quase posso ouvi-la dizer isso, ahhh posso.

Persépolis não é um livro sobre os terrores e os medos da guerra. É um livro sobre pessoas e seus conflitos gerados pela guerra, pelo regime xiita, pelos radicais. É sobre uma família que resolve mandar a filha encrenqueira para outro país para protegê-la dos absurdos que aconteceram no Irã. É sobre uma adolescente, longe da família, tentando achar seu lugar no mundo. É um livro sobre saudade, sobre descobertas e amadurecimento.
Não é um manifesto político, nem um livro sobre a história do Irã, mas sobre os vários pontos de vistas que podemos ter sobre o país, sua história e seu povo. 


A minha edição, como disse antes, é a completa publicada pela Companhia das Letras (selo Quadrinhos da Cia) - essa edição reúne os livros Persépolis I, II, III e IV e a qualidade gráfica é excelente.
Esse é o primeiro livro autobiográfico em quadrinhos que leio e gostei muito da experiência.
Também gostei do estilo da Marjane e de seu traço. E se alguém aí ainda acha que história em quadrinhos são coisas só para crianças, dá um pulinho na livraria e enfia o nariz nesse livro (eu poderia indicar outros também, mas vamos focar neste). Além de ser praticamente uma aula de história, o livro joga pela janela dois esteriótipos ao mesmo tempo: que quadrinhos são para crianças e que os árabes são uns fanáticos.

Novo-preferido ♥
Persépolis possui uma animação baseada no livro, com o mesmo nome. Antes de começar a trabalhar com quadrinhos, Marjane Satrapi não pensava em cinema, mas sua paixão pelas artes também a levou para esse lado. Persépolis virou filme para que seu alcance fosse maior. Sabemos que nem todo mundo vai pegar um livro para ler, mas um filme é mais fácil de ser assistido - ainda mais se for um desenho.
Vou deixar o trailer para que vocês confiram, mas como sempre, o meu conselho é que: leiam o livro e só depois vejam o filme!

Ahhh, só mais um detalhe: ele ganhou um Oscar de melhor animação!


Ps: o filme é em francês, só achei o trailer com legenda em inglês, mas pra assistir tem legendado em português, tá?
Procurem! rs


Classificação: 5 capuccininhos

14.7.15

Expresso faz 8


Oi pessoal!

Eu estava preparando um post-resenha quando lembrei que, para manter uma tradição, esqueci novamente o aniversário do blog (todo ano faço isso, poxa vida) rs.

Dia 12 de Julho o Expresso pra Dois fez OITO anos e tudo que eu posso pensar em dizer é: Obrigada!

Obrigada a você que me lê, obrigada a você que me cobra mais frequência aqui, obrigada a você que indica meu blog para as amigas, obrigada a você que coloca o Expresso nos seus favoritos, obrigada a você que acha que eu entendo pacas de algum assunto e me pede opinião, obrigada a você que lê os livros que eu indico, obrigada a você que se tornou meu amigo por causa desse blog, obrigada a você que me pediu o endereço pra mandar saquinhos de chá e amostra de café, obrigada a você que me mandou um vidrinho de sal grosso (foi útil, juro), obrigada a você que me acompanha lá na fanpage do blog, obrigada a você que me apoia no que eu faço aqui, obrigada a você que briga comigo quando digo que vou abandonar o blog, obrigada a todos vocês que continuam aqui, mesmo quando eu não estou. 

Obrigada a todos vocês pelo carinho nesses oito anos de Expresso pra Dois!





14.6.15

O Sol é para todos - Harper Lee

Oi pessoal.
Hoje eu vim falar sobre o último livro que li. O último mesmo, terminei de ler essa madrugada - porque não consegui dormir enquanto não terminei. E olha... que livro maravilhoso ♥ 


O título original é To Kill a Mockingbird, escrito em 1960 pela autora norte-americana Harper Lee. É um dos mais importantes clássicos da literatura e vencedor do Prêmio Pulitzer em 1961, um ano após a sua publicação. Vendeu mais de 40 milhões de cópias ao redor do mundo, foi traduzido para mais de 40 línguas e em 1962 virou um filme que também foi premiadíssimo: Oscar de melhor ator para Gregory Peck, Melhor roteiro adaptado, Melhor trilha sonora, entre outros. Ele também foi escolhido pelo Library Journal como o melhor romance do século XX e eleito pelos leitores do Modern Library um dos 100 melhores romances desde 1900.
Perceberam que essa história não veio ao mundo de bobeira, né?

Todo marcado kkkkk
Tratava-se de um livro raro e esgotado, até que algo extraordinário aconteceu.
A editora HarperCollins divulgou a notícia que chamou de um “acontecimento literário extraordinário”: a autora Harper Lee vai publicar um segundo romance 55 anos depois de seu clássico "O sol é para todos".
Uma amiga e advogada de Lee, encontrou o manuscrito junto com os originais de ' Sol é para todos' e convenceu a autora de que ele merecia ser publicado. Lee se disse surpresa ao encontrar o manuscrito após tantos anos, tinha se esquecido da existência dele e ficou muito em dúvida quanto a publicação. Ela pediu a opinião de amigos e pessoas próximas e graças a essas pessoas, o livro será laçado.

A nova obra que vai se chamar "Go Set a Watchman", foi escrita nos anos 50 e estava guardada até hoje porque Lee, que hoje com 88 anos, dizia-se satisfeita com o sucesso do primeiro livro e não achava o manuscrito tão bom quanto ele. O novo livro trará personagens que conhecemos (e amamos) no primeiro livro na fase adulta (minha adorada Scout ♥) e deve chegar ao mercado literário em Julho de 2015 (tá pertinho, socorro). Por isso também a minha "pressa" em falar logo dele aqui no blog: para que vocês tenham a oportunidade e o prazer de ler esse livro maravilhoso antes. Sim, porque graças a essa notícia bombástica no mundo literário, a Editora José Olympio (obrigada, seus lindos) relançou o clássico 'O Sol é para todos' numa edição linda e novinha em folha (vejam as fotos ao longo do post)! 
"Se você aprender um truque simples, vai se relacionar melhor com todo tipo de gente. Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas pelo ponto de vista dela. Precisa se colocar no lugar dela e dar umas voltas."
O livro conta a história da pequena Jean Louise (ou Scout), seu irmão 4 anos mais velho Jean e seu pai, o advogado Attticus. A história é narrada pelos olhos de Scout, que é uma menina esperta e inteligente (queria pra filha), sempre atenta aos acontecimentos ao seu redor. Scout e Jean são órfãos de mãe e foram criados pelo pai e pela empregada negra, Calpúrnia. Eles moram em Maycomb, um condado no sul dos Estados Unidos e a história se passa nos anos 30, logo após a Grande Depressão.


É impossível não se apaixonar pela Scout e sua curiosidade e ingenuidade. É bom lembrar que no começo do livro, ela tem cerca de 6 anos. Como a história é contada por ela, a narração tem essa característica inocente e muitas vezes o leitor já compreendeu o porquê de certas injustiças e convenções, enquanto Scout ainda tenta compreender. O tema central do livro é trabalhado através da compreensão que ela vai tendo do que acontece ao seu redor. 
“Tia Alexandra era obcecada pelas minhas roupas. Como eu podia querer ser uma mulher elegante usando suspensórios masculinos? Quando eu disse que usando vestido eu não conseguia fazer nada, ela retrucou que eu não devia fazer nada que exigisse calças compridas."
Scout conta as aventuras e travessuras que aprontou junto de seu irmão e do melhor amigo Dill. Eles exploram o perfil da sociedade naquela época, suas peculiaridades e seus defeitos. A cidade tem um terrível perfil antiabolicionista e as crianças tem uma dificuldade de entender as injustiças que presenciam. 
Scout, Jean e Dill passam o verão juntos. Um dia, resolvem descobrir porque o vizinho Arthur Raddley vive recluso e nunca é visto. As crianças bolam planos mirabolantes e fantasiosos para fazer Arthur sair de casa. A partir desse acontecimento (Scout acha que foi a partir disso), a história se desenrola para uma série de acontecimentos e o leitor se vê envolvido em uma história racismo, discriminação, preconceitos históricos e direitos humanos.


Para colocar ordem nessa balbúrdia com o vizinho, temos Atticus que é um homem justo e um super pai para as crianças, que o amam e respeitam mais do que qualquer coisa no mundo (e eu também).
Atticus é advogado e vive uma rotina tranquila, mas se envolve num caso polêmico que acaba mudando a sua rotina, das crianças e de toda a sociedade local. Sociedade essa, que é extremamente preconceituosa e vive um período histórico que foi muito difícil para os negros. Era (ou é?) uma realidade muito cruel e injusta. Nesse cenário, Aticcus é nomeado para defender um negro, Tom Robinson, acusado de estuprar uma mulher branca. O comportamento dos moradores de Maycomb muda drasticamente, as pessoas mostram seu pior lado e tudo isso é acompanhado pelo olhar de Jean e Scout. As crianças e seu pai se tornam alvo de descriminação por causa de Tom Robinson.
"-Quase todo mundo acha que está certo e que você é que está errado.
-Essas pessoas têm o direito de pensar assim, e têm todo o direito de ter suas opinião respeitada - considerou Atticus - Mas antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho que conviver comigo mesmo. A única coisa que não se deve curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa."
'O Sol é para todos' é um livro atemporal e discute situações que poderíamos muito bem estar lendo nos jornais de hoje. Uma vez que começamos a ler, nos vemos envolvidos com a história e não conseguimos largar. A narrativa é fluida, a linguagem é simples e é muito fácil de acompanhar. Os personagens são muito bem construídos, tanto os principais quanto os secundários. Você quase pode supôr a reação que terão na página seguinte após um ou outro acontecimento de tão bons que são. Eu sempre me interessei por esse livro, mas como disse no começo, ele era esgotado e difícil de encontrar (e quando encontrava, custava caro). Nesse caso, a fama faz a cama e tudo que se fale dele ainda é pouco.
Desde o título 'To kill a Mockingbird' que faz todo sentido na narrativa (e se você prestar atenção, é a mensagem do livro) até a questão filosófica central (que também encaixa perfeitamente no nome traduzido da obra), passando pela humanidade e o caráter de Átticus transmitido para seus filhos e o amadurecimento de Scout e Jean, arrisco dizer que é o melhor livro de 2015 e um dos melhores que já li na vida. Será difícil que um outro livro o supere tão em breve - talvez o próximo de Harper Lee... Será?

“As coisas sempre são melhores pela manhã” 

Eu estou ansiosa pelo lançamento do próximo livro! E vocês?

Carolina! Na verdade se chama Ana Carolina e não gosta de ser chamada de Ana. Não revela a idade, mas todo mundo diz que aparenta bem menos. Fotógrafa e estudante de Jornalismo. Mudou de área depois de anos insatisfeita com a profissão. Carioca, apaixonante e implicante. Carinha de 8, espírito de 80 anos. Chata, mal humorada e anti-social. Gosta de rimas simples, de frases bobas e é viciada em café. Na vida passada foi um gato tamanha preguiça. Tem mania de ter manias, coleciona coisas inúteis e acha ridículo isso de falar de si mesma em 3º pessoa.

 
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