14.7.11

Na minha biblioteca



A melhor companhia na minha cama, geralmente mora na minha estante.
E a minha estante mora ao lado da minha cama. Deito no travesseiro e olho pro teto. Não durmo. Estendo a mão e pego um livro. Hesse: "Meu pai tinha razão, o mundo é mesmo muito bonito." Outro! Gaarder: "Será que você conseguiria ser feliz repetindo coisas que no fundo do seu coração, não acha certas?" - Não, não seria, Jostein querido. Próximo. Will: "Os miseráveis não têm outro remédio a não ser a esperança." - Eu tenho esperanças, Will. Não muitas, mas tenho algumas. Algumas sobrevivem aos tombos, tantos e tão altos que eu levo. Muitas estão na UTI. Respiro fundo. Respiro de novo. Inflo o peito e levanto pra olhar a estante mais de perto. Pra parar de brincar de oráculo. Lembro de uma citação de George Bernard Shaw: "Você vê coisas e diz: Por quê?; mas eu sonho coisas que nunca existiram e digo: Por que não?" e lembro que não tenho nenhum livro dele. Penso em comprar, penso em ler, preciso ler algum livro dessa estante. E tenho tanto livro que ainda não li. Porque livro, eu compro por compulsão. Por promoção. Por pacote. Por desconto em frete. Por necessidade de boa companhia, porque na verdade, eles, todos eles, são mesmo a minha melhor companhia.
Do poeta que me estapeia a cara ao romancista que ri da minha ingenuidade. Todos me cabem. Todos me servem. Todos trazem sobriedade aos meus olhos de ressaca. Sim, eu também sou assim. Tenho ressaca do mundo, das coisas que vejo e ouço. Por isso leio. Porque a minha fé tem começo, meio e fim. Às vezes tem índice. Noutras, capítulos. Visto-me de crônicas e enfeito os cabelos com poesia. Uso a maquiagem do texto. Sofro as reticências no fim da linha. Amanheço sujeito oposto, adormeço antagonista da trama. Mocinha do drama. Camélia da cama. E se pareço confusa, é porque o romance mora em mim. Sou co-autora, inspiração vaga, um tiro contra o peito apaixonado. Bala de festim. E o amor não é brincadeira. E o amor não é conto de fadas. O amor não é nada. É página solta do miolo, carimbo da contracapa. Rótulo de biblioteca. Sou meu próprio texto, minha tese, minha peça, minha própria pedra no meio do caminho. Estrada dos meus descaminhos. Minha paz, minha guerra e meu desassossego. Trago nos olhos as minhas cantigas de roda. Sou a janela aberta que deixa o frio entrar em mim. 
Atravesso as noites na nitidez da minha sanidade. Insano é morrer de medo. Afundo a cabeça no travesseiro e abraço o livro contra o peito. Sei lá o que é feito de mim. Sei lá quem sou nessas telas, nessas vaidades do fingimento de ser o desconcerto de alguém. Quem sabe, a peste de alguma plantação. Um campo inteiro de centeio. Sem apanhador. Dor. Sangrando nas entrelinhas. Eu em todas as metonímias. Leio o poema que já sei de cor. Decoro as palavras que já sei a cor. São negras. Como os olhos, negros. Turvos e perdidos como barco sem vela em maremoto. Sete léguas de mim. Sete mares sem fim. As palavras escondem segredos embriagados, voláteis e subentendidos. Escondem o que revelo, o que entrego. Subverto-me. Inverto-me. Inverso-me. Em versos. No entendimento que faz sumir a rima. Na rima que se perde da poesia.
Fecho o livro, janela onde me penduro imprudente, antes que eu caia no vazio da minha alma. Essa loucura é o fardo que guardo enfileirado na minha estante. Eles, os livros, armas engatilhadas contra mim. Eu, humana, encaro-os esperando seus tiros. Acertem-me. Matem-me. Que me refaço em outro prefácio.

Eu poderia evitar essas mortes, minhas, convidando um colo pra dormir ao meu lado. 
Mas acontece que a melhor companhia na minha cama, geralmente mora na minha estante.




Ps: Voltando pra programação normal

Comente com o Facebook:

0 comentários:

Postar um comentário

Carolina! Na verdade se chama Ana Carolina e não gosta de ser chamada de Ana. Não revela a idade, mas todo mundo diz que aparenta bem menos. Fotógrafa e estudante de Jornalismo. Mudou de área depois de anos insatisfeita com a profissão. Carioca, apaixonante e implicante. Carinha de 8, espírito de 80 anos. Chata, mal humorada e anti-social. Gosta de rimas simples, de frases bobas e é viciada em café. Na vida passada foi um gato tamanha preguiça. Tem mania de ter manias, coleciona coisas inúteis e acha ridículo isso de falar de si mesma em 3º pessoa.

 
Expresso pra Dois © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Rafaela Melo :: voltar para o topo